A mente do Aspirante

A MENTE DO ASPIRANTE

Estudo psicológico por Swami Sivananda

Extraído de seu livro Sadhana

Idéias Preconcebidas

Muitos sadhakas (aspirantes espirituais) iniciam sua vida espiritual com certas idéias preconcebidas sobre sadhana (prática espiritual), realização, guru, etc. Mas na realidade a vida espiritual é diferente do que se imagina.

Alguns descobrem que existem muitas coisas que são completamente diferentes da idéia que se havia formado. As idéias lhes parecem reais agora, mas adiante são contraditórias. Todas as noções preconcebidas são subitamente sacudidas. Que ocorre? Frequentemente os neófitos são incapazes de aceitar estes inesperados pontos de vista e geralmente regressam a sua vida sensorial anterior.

Este é o maior erro que pode ser cometido. Uma incomparável jóia há sido recebida e totalmente desprezada. Uma oportunidade única é desperdiçada. A mente continuará com os mesmos hábitos sensoriais de antes. O que ocorre é que o aspirante está enraizado em suas antigas concepções. Seu ego se aferra a elas. Tem, por exemplo, uma ideia fixa do que é a sadhana. Pensa que a pessoa que elegeu como Guru lhe imporá uma sadhana que combine com suas idéias. Se isso não ocorrer, surge a insatisfação.

Ele pensa que o Guru deve comportar-se de uma maneira determinada, mas se assim não ocorre, diminui sua lealdade perante ele. Entregar-se aos pés do Guru para logo começar a julgar sua conduta ou a duvidar dele é o maior erro que um aspirante pode cometer, ataca a essência sadhana e da vida espiritual.

Assim mesmo, o sadhaka começa a senda com uma idéia particular de seu próprio progresso espiritual e do nível que tem alcançado. Mas, realmente, só Deus sabe em que nível cada um se encontra. Ainda assim, continuará com suas idéias preconcebidas. Quando os feitos demonstram que estava equivocado, perderá seu entusiasmo e se decepcionará. Isto é perigoso. Decepcionar-se e desanimar-se no começo da vida espiritual é um obstáculo grave. A capacidade e o desejo de fazer sadhana diminuirão. Perderá a coragem e sentirá um desgosto com a vida espiritual.

O sadhana deve ser feito com sincero entusiasmo e alegria, aceitando a vida de sadhaka com uma mente aberta, libertando-se das idéias preconcebidas, fruto de seu próprio egoísmo, cercando-se das coisas espirituais com uma atitude receptiva e com vontade de aprender. Prepare-se para adaptar-se a elas em vez de esperar inutilmente que elas se adaptem as suas idéias. Sem esta atitude, a desarmonia marcará o começo da sua sadhana e cairá em profundas decepções, difíceis de superar. Isso frustrará todo o curso da sua sadhana e haverá desperdiçado o seu precioso tempo. Tyaga (renúncia) da anterior forma de pensar é necessária se desejar entrar e continuar sem problemas no caminho espiritual. Ao avançar, compreenderá as coisas gradualmente e as verá com maior claridade, uma por uma.

Diversos pensamentos e idéias do dever

O segundo obstáculo que invariavelmente persegue o aspirante são os diversos pensamentos e idéias do dever. Certamente, antes de começar a fazer sadhana ou pensar em levar uma vida espiritual, tinha-se um menor sentido do dever. Geralmente a pessoa estava indiferente ou era negligente para com seus deveres ou com sua família. Talvez seus pais lhe pedissem diariamente que buscasse um trabalho para ajudar a manter a família, e você se fazia de surdo e se divertia em cinemas e restaurantes. Inclusive, se conseguisse um trabalho, começaria a vestir roupas elegantes, mas deixaria que sua mãe ou sua irmã vestissem roupas velhas todos os dias. Porém, ao fazer sadhana e levar uma vida espiritual, a mente começará a preocupar-se com os problemas familiares e pensará que está faltando com as obrigações com sua mãe, irmã, irmão, etc. Todas essas idéias surgem agora, quando decidiu pelo caminho da sadhana. Começa a duvidar e a fraquejar. A tudo isso, acrescenta-se a oposição dos amigos e da família diante da vida espiritual. Eles dirão a você: “Que siginifica isso de japa, dhyana e usar um mala? Essas coisas devem ser feitas quando tiver um tempo livre; antes, trate de cumprir com seu dever.” Isso fará que o pequeno interesse com que começou se quebre. A mente se decepciona dessa forma. A mente é Maya. Seu trabalho consiste em evitar que o homem, de uma forma ou de outra, experimente a Realidade. É aquilo que sempre tenta ocultar a Verdade. Há de estar, portanto, sempre alerta e vigilante. No preciso momento em que decide começar o Caminho, a mente criará todas essas idéias de dever, responsabilidade, coisas mais importantes para fazer, etc., que até agora não lhe haviam preocupado. Mantenha-se alerta!

Tenha determinados deveres em determinadas ocasiões. Mas fazer sadhana para alcançar a Realização do Ser é o dever mais importante e urgente que deve estar presente em sua vida até o último momento. Não pode se dar ao luxo de renegá-lo durante um só minuto. Deixe que esta idéia penetre firmemente em sua mente. Não duvide, comece a fazer sadhana regular e sistematicamente desde o momento em que ler esta frase. Agora feche a página, sente-se em silencio, relaxado, com os olhos fechados e a coluna ereta. Pense no sublime (elevado) objetivo da vida e como ela está organizada para fazer sadhana espiritual. Repita o nome do Senhor dez minutos. Comece a andar com decisão. Siga adiante com determinação e energia. Fixe a sua mente de uma vez para sempre no ideal que quer alcançar. Alcançará a meta nesta mesma vida.

A mente resiste à disciplina

Quando você toma a decisão e começa a fazer sadhana com regularidade, talvez tenha que enfrentar uma serie de problemas e dificuldades que não tinha antes. Em principio, encontrará obstáculos a todo o momento. Pensará que isso tudo ocorre porque começou a fazer sadhana e que estava muito melhor antes. Não desanime, há uma razão para isso. Sadhana implica impor-se certas restrições. Até o momento, não havia se oposto ao que os sentidos queriam e agora começa uma senda de disciplina tanto externa quanto interna. Isso significa entrar em conflito com suas obstinadas e revoltosas impressões sensoriais. Quando tem que lutar contra elas, começa a sentir sua força – que antes parecia estar relativamente controlada. Quando se está pedalando ladeira abaixo, tudo parece maravilhoso e agradável. Quando se dá a volta e tenta subi-la, percebe-se o cansaço e a dificuldade. Isso é o que ocorre quando se começa a fazer sadhana com sinceridade. A sadhana é um caminho ladeira acima. É uma luta contínua contra a corrente com as tendências samsáricas de inumeráveis vidas. Significa voltar a subir o que havia descido no abismo da vida mundana.

Em principio, o neófito não está acostumado com esse esforço. Tal acúmulo de dificuldades e problemas o acovardam durante um tempo. Isso é normal. Não se preocupe! Suporte com fortaleza. Essas dificuldades surgem no principio. Logo desaparecerão e conseguirá fortaleza dia a dia. Supere quantos problemas, provas e riscos tiver que suportar ao tratar dos assuntos mundanos, como ganhar dinheiro, algum negócio, um exame ou um assunto legal. Então estará disposto a suportar todas as dificuldades que surgirem no começo do caminho espiritual já que tem mente o tesouro Átmico infinito e imensurável que alcançará no final.

No caminho espiritual, um pouco de dor produz inumeráveis ganhos. Aquele que faz um pequeno sacrifício, tem assegurado o êxito. Até agora o sadhaka se movia em um círculo pequeno, sacrificando algo finito para conseguir algo também finito. Agora, ao começar o caminho reto e glorioso, o sadhaka sacrifica coisas finitas e transitórias para obter AQUILO que é eterno e infinito.

Comece agora o sadhna marga (caminho espiritual) com uma mente aberta e livre de todo preconceito, seja plenamente consciente do dever de fazer sadhana espiritual e suporte tranquila e alegremente todas as provas iniciais.

Alcançará vida eterna, esplendor permanente, paz e bem-aventurança!

Hare Om Tat Sat

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